A adoção da Inteligência Artificial pode se tornar um Efeito Manada onde a empresa adota a tecnologia apenas porque os concorrentes estão fazendo?

A adoção de Inteligência Artificial pode, sim, se transformar em um perigoso “Efeito Manada”. E isso já está acontecendo em muitos setores — inclusive na saúde. Organizações investem milhões em IA não porque sabem exatamente por que, para quê e como usar, mas porque o concorrente anunciou, o fornecedor vendeu bem, o conselho perguntou ou a mídia pressionou.

Nesse cenário, o CIO ocupa uma posição crítica. Ele pode ser o guardião da racionalidade estratégica ou o facilitador de mais uma onda de desperdício tecnológico.

O papel do CIO moderno não é “levar IA para dentro”.
É proteger a organização de investir errado, no momento errado e pelo motivo errado.

Este texto aprofunda como o CIO pode evitar o Efeito Manada, estruturar decisões maduras e garantir que cada investimento em IA esteja ancorado em valor real de negócio, impacto operacional e coerência estratégica.


1. Entendendo o risco real do “Efeito Manada” em IA

Antes de falar em solução, é preciso nomear o problema.

O Efeito Manada em tecnologia ocorre quando:

  • A decisão é reativa, não estratégica
  • O gatilho é externo (mercado, concorrência, mídia)
  • O racional de negócios vem depois — quando vem
  • A tecnologia vira símbolo de status, não alavanca de resultado

Em IA, esse risco é ampliado por três fatores:

📌 1.1 A IA é invisível para quem decide

IA não é um equipamento, um prédio ou um software clássico.
É intangível, probabilística e complexa. Isso dificulta a avaliação crítica.

📌 1.2 A promessa é sempre superdimensionada

Fornecedores falam em:

  • Eficiência exponencial
  • Redução imediata de custos
  • Decisões autônomas
  • Substituição de pessoas

Poucos falam de:

  • Qualidade de dados
  • Governança
  • Riscos legais
  • Esforço de mudança cultural

📌 1.3 O medo de “ficar para trás” paralisa o pensamento crítico

Boards não querem explicar no futuro por que “não entraram”.
E muitos CIOs cedem, trocando protagonismo por complacência.

Frase-chave:

Tecnologia adotada por medo nunca gera vantagem competitiva sustentável.


2. O novo papel do CIO: de patrocinador tecnológico a arquiteto de valor

Para evitar decisões miméticas, o CIO precisa mudar a narrativa interna.

Ele deixa de ser:

  • O “cara da tecnologia”
  • O viabilizador de demandas difusas
  • O executor de modas tecnológicas

E passa a ser:

  • Curador estratégico de investimentos digitais
  • Arquiteto de valor orientado ao negócio
  • Contraponto técnico-político ao ruído do mercado

Isso exige postura, método e coragem.


3. Primeira âncora contra o Efeito Manada: começar pelo problema, não pela tecnologia

Toda decisão madura sobre IA começa pela pergunta certa:

“Qual problema de negócio relevante estamos tentando resolver?”

Não:

  • “Onde podemos usar IA?”
  • “O que o mercado está usando?”
  • “Qual solução está na moda?”

✅ Exemplos de problemas reais (bons gatilhos):

  • Gargalos operacionais recorrentes
  • Custos crescentes sem ganho de qualidade
  • Riscos clínicos ou operacionais críticos
  • Falta de previsibilidade para decisão
  • Sobrecarga de equipes-chave
  • Perda de receita por ineficiência

❌ Exemplos de gatilhos frágeis:

  • “O concorrente anunciou”
  • “O fornecedor mostrou um case”
  • “O conselho pediu algo com IA”
  • “Precisamos parecer inovadores”

Analogia:
Usar IA sem problema claro é como comprar uma turbina para um barco que não tem leme.


4. Segunda âncora: traduzir IA em linguagem de negócio (e não técnica)

Um CIO só evita o Efeito Manada se consegue mudar a conversa com o board.

IA não pode ser apresentada como:

  • Modelo
  • Algoritmo
  • LLM
  • Machine Learning
  • Neural Network

Ela precisa ser apresentada como:

  • Redução de custo
  • Mitigação de risco
  • Aumento de margem
  • Escala operacional
  • Proteção da reputação
  • Melhoria da experiência

✅ Exemplo de framing correto:

“Este projeto não é sobre IA.
É sobre reduzir em 18% o tempo médio de espera, diminuindo risco assistencial e pressão jurídica.”

❌ Framing errado:

“Vamos implantar um modelo de IA para predição.”

Quem decide investimento não compra tecnologia.
Compra resultado previsível.


5. Terceira âncora: exigir tese de valor explícita para cada iniciativa de IA

Nenhuma iniciativa de IA deveria avançar sem uma Tese de Valor documentada.

Essa tese precisa responder, no mínimo:

📌 5.1 Qual valor será gerado?

  • Financeiro?
  • Operacional?
  • Clínico?
  • Reputacional?
  • Estratégico?

📌 5.2 Onde esse valor aparece?

  • Receita?
  • Custo?
  • Risco?
  • Qualidade?
  • Tempo?

📌 5.3 Quando o valor começa a emergir?

  • Curto prazo?
  • Médio prazo?
  • Longo prazo?

📌 5.4 O que acontece se NÃO implantarmos?

Essa é a pergunta que mata o Efeito Manada.

Se a resposta for:

“Nada relevante.”

Então o projeto não é prioritário.


6. Quarta âncora: separar “experimentação” de “investimento estrutural”

Outro erro clássico do Efeito Manada é tratar tudo como projeto estratégico.

O CIO maduro cria dois trilhos claros:

🔹 Trilho 1 – Experimentação controlada

  • Provas de conceito
  • Baixo custo
  • Escopo limitado
  • Tempo curto
  • Aprendizado explícito

Objetivo: aprender, não escalar.

🔹 Trilho 2 – Investimento estrutural

  • Alinhado ao plano estratégico
  • Orçamento relevante
  • Governança robusta
  • Métricas claras
  • Patrocínio executivo

Objetivo: gerar valor recorrente.

Misturar os trilhos leva a:

  • Frustração
  • Desperdício
  • Ceticismo organizacional
  • Descrédito da IA

7. Quinta âncora: governança antes da euforia

Governança não é burocracia.
É proteção estratégica.

Sem governança, IA vira:

  • Risco legal
  • Risco reputacional
  • Risco assistencial
  • Risco financeiro

O CIO deve estabelecer:

✅ Princípios claros

  • Onde IA pode decidir
  • Onde apenas recomenda
  • Onde é proibida

✅ Critérios mínimos

  • Qualidade de dados
  • Transparência
  • Auditabilidade
  • Segurança
  • Conformidade (LGPD, ética, compliance)

✅ Fóruns de decisão

  • Multidisciplinares
  • Com poder real de veto
  • Com critérios técnicos e de negócio

Frase de impacto:

Governança forte permite ousadia segura. Sem ela, qualquer ousadia vira imprudência.


8. Sexta âncora: KPI antes do contrato

Efeito Manada adora contratos rápidos.

CIO estratégico faz o oposto:

  • Define métrica primeiro
  • Contrata depois

Todo projeto de IA deve nascer com:

  • KPI principal
  • KPIs secundários
  • Métricas de sucesso e falha
  • Critério de parada

Se não há métrica clara, há apenas fé.


9. Sétima âncora: educar o board para reduzir ansiedade tecnológica

Muitos projetos “manada” nascem da insegurança do topo.

O CIO precisa assumir um papel pedagógico:

  • Explicar limites da IA
  • Desmistificar promessas
  • Mostrar riscos reais
  • Comparar alternativas não tecnológicas
  • Conectar IA ao tempo certo da organização

Analogia:
IA é como um medicamento potente.
Em paciente certo, na dose certa, cura.
Em uso indiscriminado, intoxica.


10. O teste final: a pergunta que separa estratégia de manada

Antes de qualquer grande investimento, o CIO deveria fazer — e responder — publicamente:

“Se o nosso principal concorrente NÃO estivesse usando IA, ainda assim faríamos este investimento?”

Se a resposta for:

  • Sim, siga.
  • Não, pare.

Simples. Brutal. E extremamente eficaz.


Conclusão: o CIO como antídoto ao Efeito Manada

A Inteligência Artificial não será um diferencial por muito tempo.
O diferencial real será:

  • Quem usa com clareza
  • Quem usa com método
  • Quem sabe dizer não
  • Quem transforma tecnologia em valor real

O CIO não existe para seguir o mercado.
Existe para proteger a organização do ruído e direcionar investimentos para onde o impacto é real.

No fim, a pergunta não é:

“Estamos usando IA?”

A pergunta correta é:

“Estamos usando inteligência — humana e artificial — do jeito certo?”

Esse é o tipo de liderança que separa empresas que sobrevivem
das que constroem o futuro com consistência.


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